Objetos de Desejo
Livro: O Símbolo Perdido, de Dan Brown
Livro: A Rainha do Castelo do Ar, de Stieg Larsson
DVD: O Casamento do Meu Melhor Amigo, com Julia Roberts, Cameron Diaz e Dermot Mulroney
Livro: O Símbolo Perdido, de Dan Brown
Livro: A Rainha do Castelo do Ar, de Stieg Larsson
DVD: O Casamento do Meu Melhor Amigo, com Julia Roberts, Cameron Diaz e Dermot Mulroney
… exercita a paciência
Corta os pulsos no final
Saída de emergência…”
(Pulsos - Pitty)
Não fazia idéia do quanto a irritara. Talvez tivesse mesmo essa intenção, ela já não tinha certeza. Fato é que, sim, ele a aborrecera. As pessoas sabem muito bem como manipular a arte de entristecer. Praticam-na com tamanha maestria que tão logo onde havia girassoís não se vê nem carrapichos. Não entendia porque continuava a se deixar abater. Talvez fizesse o mesmo juízo de si mesma. Por vezes pensara em fugir disso. De tudo. Da contínua satisfação que existia em fazê-la esmaecer. Nada de mochilas nas costas, destino errante, não nutria nenhuma fantasia aventureira (embora o horóscopo teimasse em lhe dizer o contrário). Pensava, sim, em mudar de emprego, de cidade, de estado. Fixar residência e se acomodar com novos horários, novas pessoas. Mas sua natureza acomodada e temerosa acabava por fazê-la desistir. Na verdade julgava ter um “quê” de artista, escritora, pensadora… Parecia fácil escrever sobre suas desventuras, frustrações. Dizia isso como se fosse para os artistas estritamente necessário produzir sob a tutela de suas angústias. E assim sempre que uma delas lhe “aperreava” de maneira mais incandescente ela despertava sua caneta e “danava” a grafar melancolias. Seu peito arfava em meio a fobias e pânico, enquanto sua mão frenética escrevia desconexas verdades e conclusões exageradas. Por vezes tinha certeza do potencial psicossomático de seus “mal-estares”. Horas ou até dias depois de erupções como essa, seu organismo apresentava sintomas de que algo não ia bem. Não conseguia digerir tudo e os resíduos necessitavam ser eliminados. Como não há um orificio específico por onde pudessem se desprender de seu corpo, tendiam a escapar das maneiras mais inapropriadas. Isso já havia conduzido-na a mergulhos estranhissímos a uma literatura psicanalítica bem danosa a leigos.
… e eu me sinto enfeitiçada
Correndo perigo
Seu olhar…
É simplesmente Lindo…”
(Menino Bonito / Rita Lee)
Saber como tudo aconteceria ela não sabia. Fazia projeções, fantasiava, mas a metodologia ainda era incerta. Certeza mesmo ela tinha de que aconteceria: ele seria seu. Estava escrito. Em algum lugar luzia uma chama de amor e esperança. Ele e ela ainda seriam um casal… lindo, caliente e feliz. E tudo seria como tinha de ser.
Não sei que intensa magia, teu corpo irradia
Que me deixa louco assim, mulher
Não sei, teus olhos castanhos, profundos, estranhos
Que mistério oculta….rão, mulher
(Mulher - Emilio Santiago)
Não é de hoje que a mulher luta por isso ou por aquilo… e se rebela. Pra começo de história, em pleno paraíso, havia de ser a mulher, e sua incansável insatisfação, a criatura a dar o primeiro passo (ao provar da bendita fruta) rumo a uma nova era. A classe feminina, sempre foi julgada, e subjugada. Fragilidade física, emocional, habilidades manuais supostamente menos importantes, entre outras características, foram suficientes para que nos tornassem o gênero inferior. Resignadas, limitadas e ao longo dos anos, religiosamente coagidas, precisamos de tempo para acordar. De tempo e de figuras contestadoras, arredias e conscientes para escreverem a história da Revolução Feminina. Eva, Maria, Cleópatra, Joana D’arc, Princesa Diana, e tantas outras que fizeram e fazem a história. Mas fato é que em algum momento alguém perdeu a mão. O que a principio era uma clara, homogênea e sensata luta por igualdade e respeito (direito ao voto, licença-maternidade, etc), se dividiu. Além de tão nobres motivos, há aquelas que confundem essa busca com a “masculinização da mulher”. Parece estranho, mas não é. Nós mulheres lutamos pelo nosso espaço, mas existem diferenças entre nós naturalmente impostas. Pra começo de história, diferenças físicas externas e internas. Temos limitações. Não aguentamos certos esforços físicos, assim como eles não têm certas habilidades manuais. Eles são mais racionais, nós somos mais emocionais, etc. Diferenças cientificamente comprovadas. Isso não significa que um seja mais importante que o outro. Juntos nos entregamos ao prazer, juntos procriamos, nos completamos. Mas às vezes completar-se parece que não é suficiente pra algumas de nós. Existem os casos extremos daquelas mudam seu corpo, procurando igualar a sua apresentação física à masculina. Mas o que mais me incomoda é o comportamento feminino masculinizado. São palavras, gestos e atitudes, que não cabem a um ser que na natureza tem o privilégio de abrigar uma vida dentro si. Talvez a criatura que aqui escreve esteja encharcada de anos e anos de pré-conceitos e subjugação feminina. Mas além de estereotipação, existem características comportamentais que fazem o que somos, e que asseguram o respeito que tanto buscamos. É da natureza a fêmea ter características provocativas, que garantem a atração do macho e consequentemente a reprodução e perpetuação da espécie. Mas usá-las indiscriminadamente, na tentativa de assegurar um “direito” (a galinhagem típica e físico-hormonal masculina virou direito) causa uma neblina na nossa feminilidade e acende a brasa da vulgaridade. O que ocasiona situações desconfortáveis e macula a imagem feminina. Não estou com isso defendendo a santificação, beatificação da mulher. A mulher tem que se satisfazer sexualmente, intelectualmente, tem que ser feliz. Mas ser mulher é ser gentil. Ser doce sem deixar de ser firme, ser vaidosa, ser inteligente, ser feminina. Isso que nos faz mulher atraente e indispensável, e de forma alguma nos faz inferior.
“Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida…”
(Todo amor que houver nessa vida - Cazuza)

… dia pra esses olhos sem te ver
é como o chão do mar…
(Luz dos Olhos - Nando Reis)
Quando ela nasceu não surgiu nenhuma nova estrela no céu fluminense, ela nem mesmo nasceu no Rio. Seus olhos não eram de cigana, tampouco oblíquos e dissimulados. Não era Diva, Lucíola ou Helena. Não havia uma descrição na literatura na qual ela se encaixasse, mas ainda sim tinha um ‘quê’ de heroína. Talvez porque sua história pudesse ser a de qualquer uma, ou porque Ele pudesse ser de qualquer uma?! Mas fato é que Ele era dela e definitivamente aquela era uma história singular.
Fosse pela combinação explosiva, Sagitário&Leão, fosse pela sequência em que os fatos aconteceram, a história entre aquela heroína sem folhetim e o indecente contador de histórias não tinha nada de comum. De início tiveram um primeiro encontro nada convencional. Ela que raras vezes na vida ousara calçar um salto agulha decidira sair aquele fatídico dia de julho no topo de um. Por obra do destino ou sabe lá do que, naquele mesmo dia enquanto estava a caminho do trabalho seu chefe lhe telefonara e a incubira de ir ao encontro de um excêntrico escritor pouco conhecido, mas de grande futuro, com quem a editora na qual trabalhavam vinha flertando. Ele queria discutir a respeito do perfil da empresa e se a mesma atendia às necessidades dele, aos ideais dele. Ela teve a sensação de que seria um dia daqueles. Se dirigiu ao bendito encontro. Falar sobre a editora seria fácil, ela amava aquele ambiente. Aguentar o mala do escritor é que seria o problema. Ela não se lembrava de ter visto uma foto se quer do abençoado. Estava confiando na descrição que seu chefe lhe fizera, e no garçom que no hotel lhe indicaria a mesa em que o Sr. Mendez a estava esperando pro café. De repente começou a achar que o salto tinha sido uma boa escolha, estava mais elegante. Chegara ao local, mas ele não estava no café do hotel. Decidiu sentar-se a uma das mesas, pediu a um dos garçons que a avisasse quando o Sr. Mendez entrasse no salão ou o conduzisse à mesa em que ela se encontrava. Pediu uma xícara de café, abriu o seu notebook a procura de uma apresentação de slides que ela havia confeccionado sobre a editora e que havia impressionado bastante o ultimo escritor que contrataram. Estava distraída quando uma perfume divinamente masculino adentrou suas narinas e uma voz rouca pronunciou seu nome.
- Pois não - levantou o olhar e engoliu seco. O Sr. Mendez era lindo! Seu chefe não havia lhe dito isso. Sempre que se falava dele na editora, a conversa girava em torno da excentricidade do escritor, jamais ouvira alguém referir-se aos belos atributos daquele senhor. Sim, um senhor. Para ela que tinha vinte e poucos anos, aquele homem podia perfeitamente ser seu… pai! Aham! Ele tinha quase uns cinquenta. Que charme têm os homens nessa idade! Informação e experiência, é tudo de bom. Ela então se levantou pra cumprimentá-lo. Foi nessa hora que se deu o desastre absoluto. Ela acabou esbarrando na mesa, o que fez com que a xícara de café oscilasse, com medo de que o líquido negro destruísse os gigas de informação contido naquele black piano repousado sobre a mesa ela avançou sobre o mesmo e logo em seguida afastou-se, desequilibrou-se sobre o salto agulho e foi de encontro ao chão. O mico do século. Como uma editora em via de assinar um contrato promissor manda uma funcionária tão estabanada lhe representando? Nitidamente divertindo-se com aquela situação, Sr. Mendez estendeu a mão e ajudou-a a se levantar. Ela completamente embaraçada já não sabia o que dizer. Tinha a certeza de que se houvesse um avestruz por ali, disputaria o buraco com ele. Salto agulha acabara de entrar para seu Index Proibidex. O querido escritor, certificado de que ela estava bem ( o que ela poderia dizer? Ai meu bumbum?), direcionou a conversa para o possível contrato. Momentaneamente fez com que ela esquecesse o quanto envergonhada estava. Enquanto tomava algo do tipo café com chantilly, ela apresentou-lhe os slides e ele falou sobre o projeto do novo livro. Ele era bem articulado, como ela imaginou que fosse. Não parecia excêntrico. Não mencionou ceitas estranhas da qual fosse membro ou estava vestido de maneira extravagante. Na verdade estava bastante elegante e charmoso. E tinha um olhar… putz. Que olhar! O cara era tudo de bom. Duas horas depois, particularmente, ela sentia que o contrato estava fechado. Levantou-se, agradeceu a atenção e desculpou-se pela cena que protagonizara. Enquanto fixava o olhar nos lábios dela, ele enfatizara o quanto adorara sua companhia. Disse que se pudesse fazer algo para impedir que um hematoma surgisse em tão formoso traseiro, ele faria. “O quê? Ele disse isso mesmo? Aquilo era uma cantada?” Com essa observação quanto a sua formosura, ela incomodada com o ‘abuso’ daquele senhor, estendeu-lhe a mão a fim de sair daquele ambiente… ‘que manhã! Ele sustentou o aperto de mão por mais tempo que o necessário, e então permitiu que ela se fosse.
Enquanto dirigia de encontro a editora ela repassava os acontecimentos daquela atribulada manhã. Será que era culpa daquele bendito salto agulha? Fosse ou não fosse, ela decidira aposentar temporariamente aquele sapato.