Descanse em paz!
Na vida é sempre dificil aceitar perder. Não viemos ao mundo preparados pra lidar com a frustração.É fácil lidar com o prazer, com a felicidade. Mas não viemos avisados de que sofreríamos tanto.
Nunca aprendi a lidar com a morte, apesar de ao longo desse meu quase 1/4 de século, ter vivido perdas consideráveis. Lembro-me da minha recusa em pedir a benção a vó Hélia (1936-1991) ou dos passeios na boléia do caminhão com a tia Rizo (1958-1991). Saudades do aperto de mão firme, do abraço carinhoso, do meu vôdrinho Zé (1922-2001). Das histórias sobre o Ministério da Guerra (cof,cof) e a respeito de suas idas ao Pará, Vô Miguel (1922-2003). E mais recente, das trapacinhas no jogo de cartas; da insistência em que nós, sobrinhos crescidos, pedissemos a sua benção; do imenso amor pela sua filhota; e das declarações apaixonadas feitas a sua esposa no show do Calypso que fomos 20 dias antes de sua morte, Tio Ita(1971-2008). Sofri muito com todas essas ausências. Foram tantos outros amigos, conhecidos, vizinhos, parentes que partiram, e em todas essas ocasiões senti a tristeza como se fosse a primeira vez.
Nesse fim de semana duas outras pessoas se foram. Duas outras pessoas queridas por pessoas que eu prezo. Essas duas ausências me chocaram, e mais uma vez a vida me provou que por mais que usufruamos da presença uns dos outros nunca será o bastante. A sensação que tenho é que foram cedo demais- tinham 22 e 34 anos. Mas de alguma forma também sei que vieram e cumpriram uma missão aqui conosco. Duas pessoas, que embora não se conhecessem (acho que não) tinham muita coisa em comum. Pessoas amigas, prestativas, bondosas. Que com toda certeza deixaram saudades no coração daqueles com quem conviviam e daqueles que os conheciam apenas pelos seus atos.
Com toda essa sensação de ausência, de perda, comecei a pensar. Pessoas partindo e… pessoas chegando. Lembrei-me do meu recente espanto ao constatar a quantidade de grávidas com as quais tenho cruzado pelo caminho. A humanidade parece estar renascendo. Sinto como se essas crianças que estão a caminho vêm pra amenizar a saudade que sentimos daqueles que se foram. Não quero desmerecer a existências dessas pequenas bençãos, só quero ressaltar a responsabilidade que essas crianças trazem sem nem terem nascido ainda. Vejo nelas a esperança de que o bem, feito por aqueles que se foram ‘cedo’, seja perpetuado por elas em nosso meio.