Bastaria pra que o mundo houvesse em qualquer lugar…

“Há sempre a pequena chance
de o impossível rolar..”
(Sua impossível chance - Titãs)

“Há sempre a pequena chance
de o impossível rolar..”
(Sua impossível chance - Titãs)
Todos os seres têm Amargura em seu organismo - em maior ou menor grau - da mesma maneira que quase todos temos o bacilo da tuberculose. Mas estas duas doenças só atacam quando o paciente acha-se debilitado; no caso da Amargura, o terreno para o surgimento da doença aparece quando se cria o medo da chamada “realidade”.
Certas pessoas, no afã de querer construir um mundo onde nenhuma ameaça externa pudesse penetrar, aumentam exageradamente suas defesas contra o exterior – gente estranha, novos lugares, experiências diferentes - e deixam o interior desguarnecido. É a partir daí que a Amargura começa a causar danos irreversíveis.
O grande alvo da Amargura (ou Vitríolo, como preferia o médico do meu livro) é a vontade. As pessoas atacadas deste mal vão perdendo o desejo de tudo, e em poucos anos já não conseguem sair de seu mundo – pois gastaram enormes reservas de energia construindo altas muralhas para que a realidade fosse aquilo que desejavam que fosse.
Ao evitar o ataque externo, também limitam o crescimento interno. Continuam indo ao trabalho, vendo televisão, reclamando do trânsito e tendo filhos, mas tudo isso acontece automaticamente, sem que entendam direito porque estão se comportando assim – afinal de contas, tudo está sob controle.
O grande problema do envenenamento por Amargura reside no fato de que as paixões – ódio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade – também não se manifestam mais. Depois de algum tempo, já não restava ao amargo qualquer desejo. Não tinham vontade nem de viver, nem de morrer, este era o problema.
Por isso, para os amargos, os heróis e os loucos são sempre fascinantes: eles não têm medo de viver ou morrer. Tanto os heróis como os loucos são indiferentes diante do perigo, e seguem adiante apesar de todos dizerem para não fazerem aquilo. O louco se suicida, o herói se oferece ao martírio em nome de uma causa – mas ambos morrem, e os amargos passavam muitas noites e dias comentando o absurdo e a glória dos dois tipos. É o único momento em que o amargo tem força para galgar sua muralha de defesa e olhar um pouquinho para fora; mas logo as mãos e os pés cansam, e ele volta para a vida diária.
O amargo crônico só nota a sua doença uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como não tem o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebem que alguma coisa está muito errada.
Ao som de: Mudar dói, mas não mudar dói muito - Oswaldo Montenegro
Muros e Grades - EngHawaií
Uma canção de amor jogada ao vento
pela boca de um anjo sedutor,
acertou-me como uma flecha
me causando desconforto
e entorpecendo o meu humor.
Se eu tivesse um fragmento mais de tempo,
um ‘naco’ de eternidade,
demovia esse sofrimento
detetizava minha alma.
Que odisséia, vejam só.
Minha pessoa viveria
Ilusão, tormentos,
sonhos, contratempos
Travados dias a fio
Pra que no fim de tudo
me restasse ’a fantasia’.
[De Isolda, Julieta, Madalena, Maria...]
Uma epopéia sentimentalóide, eu escreveria.
Versos loucos e generosos
de uma aventura desvairada,
grafados por uma anedótica criatura
numa jornada anestesiada.
Tenho de confessar. Não posso esconder… eu pequei. Pequei porque não
me aguentei e dirigi olhares de cobiça pro homem alheio. Sabe aquele tipo de pessoa que não tem nada demais, mas de alguma forma chama a atenção? Assim foi. O cara passou a vez dele pra mim (a garota estabanada que sempre tropeça e quase cai), e tipo… nem me cantou, nem nada! Eu ’secando’ ele, e ele nada. Será que foi isso que chamou minha atenção? O fato dele nem ‘tchum’ pra mim?
“-Descrição, descrição, descr…”
Tá bom, já vai: o cara estava de calça social escura, camisa social verde, sapatos combinando, cabelo penteado, pele branca, óculos, 1,70m e poucos de altura, na casa dos trinta, barba feita. Sabe aquele furinhos no rosto? Ai, ele tinha. Educado, sabe! Lembrei de minha prima Doce falando da importância de sempre estar maquiada e de cabelo tingido e escovado, “Nunca se sabe né? A gente pode encontrar o grande amor de nossas vidas ao dobrar a esquina, quando saía pra comprar pão. E eu quero estar linda quando eu encontrá-lo”. Ódio! Eu estava descabelada, o pó e o rímel já tinham ido embora a muito tempo. Um calor danado, grudenta… aff! Sem chances! Nada a ver! …nada a ver eu ficar pensando nesse cara, gente. Ele só passou a vez pra mim. E com certeza, solteiro não deve ser. Se num for casado, é gay. Bem que tinha um japa com ele… mas verdade seja dita, o cara não tinha jeito de bicha. Ele só não me ’secou’ quando olhou pra mim. Será que eu tô tão ’sem sal’ assim? Acho que as minhas ‘pochetinhas’ estão, de fato, me atrapalhando. Ai gente.. que coisa!
