Monday, May 4, 2009

Wonder Woman

http://www.atadolfo4.xpg.com.br/Leanne%20Tweeden%20-%20Mulher%20Maravilha.jpg

   Ela não tinha um body vermelho e azul com estampa de estrelas, nem uma tiara dourada, tampouco um laço da verdade ou botas vermelhas. Ela não ia lutar contra nenhuma maluca enfurecida, defender as amazonas de Themyscira ou reconduzir um mocinho de nome Steve Trevor à sua terra de origem. Não participava de nenhuma Liga Extraordinária, nem tinha amigos fiéis com superpoderes. Ao contrário. Quase sempre  usava calça jeans e camiseta Hering, cabelos presos num rabo-de-cavalo e sandálias plataforma, e todas as suas armas (batom, rímel e hidratante) ela carregava numa bolsa a tira-colo.  Seus amigos por vezes a esqueciam ou lhe faltavam em momentos importantes. Também não havia mocinho qualquer precisando ser salvo, ou era apadrinhada por deuses ou pessoas importantes.
   Sua rotina era muito mais modesta que a da heroína criada por Marston. Não tinha nenhum tipo de força extraordinária. Na verdade era muito sensível. Na roda-gigante hormonal tão caracteríticas às suas, ela por vezes sucumbia a um dileminha qualquer. Volta e meia mergulhava em crises existenciais homéricas. Tinha um master senso auto-crítico e uma bondade quase artificial. Por vezes perdoava os seus, mas quanto a si… era implacável. Se considerarmos as saias-justa em que por vezes se metia, tinha certo jogo de cintura. Não que sua cintura fosse fina como a da caucasiana semi-imortal, mas tinha lá seus atributos.
   Sua tez pálida devia-se a pouca exposição do sol. As espinhas lhe lembravam a adolescência pouco vivida. As maçãs do rosto eram salientes, os lábios finos e rosados, os olhos grandes e escuros. Não tinha um laço capaz de envolver e obter a verdade de quem quer que seja, mas por vezes sua intuição conseguia ler as pessoas.
   Tinha planos. Tinha sonhos. Não buscava a perfeição. Não tinha toda aquela coragem da amazona, e nem toda a sua disposição, mas sabia querer bem. Vivia a sua vida com uma certa angustia, mas tocava em frente. Só lhe restava acreditar. Podia não ser a Mulher Maravilha, mas apesar de tudo e com uma certa ajuda (maquilagem e figurino) por vezes se sentia uma Maravilha de Mulher.

Ao som de : Love You’till The End - The Pogues

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Sunday, March 1, 2009

“Ando por aí, querendo me encontrar…”

   Ela decidira caminhar aquela tarde. Caminhar sempre lhe fizera bem. Tênis branquissímos nos pés, camiseta larga, cabelos escuros cacheados presos num estratégico rabo-de-cavalo, calça justa e escura sob as pernocas branquelas, vestida para andar. Ela adora esse visual. Se não fosse sua pouca estatura, adotaria esse conforto em sua vida diária, mas de fato parecia mais baixinha quando se vestia assim.
   Saiu de peito aberto, disposta a enfrentar a rua, o sol, a leve brisa. A cada passo se sentia mais afastada daquilo tudo, parecia estar se libertando de uma prisão. Seus pensamentos iam longe. Cada passada mais rápida era como se as amarras, as correntes, fossem deixadas para trás. Sua mente frenética elucidava situações, dissipava rumores, e corria, embora ela mesma ainda estivesse andando.
   Toda a sua existência parecia chata. Tudo estava do jeito que ela não queria. Quanto mais longe estivesse, mais feliz se sentia. E assim ela caminhava. Sem lenço, sem documento, com uma malha bem justinha e um sorriso no rosto. “Eu ainda posso andar. Eu posso!”

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Sunday, February 22, 2009

“De perto ninguém é Normal”


Ela estava se sentindo estranha. As peças pareciam não se encaixar. Dúvida, esperança e medo pareciam brigar dentro de si. Disputavam o primeiro lugar no ranking da emoções conflituosas. Às vezes se perguntava onde havia se dado o primeiro passo em falso. Sim, porque tinha a sensação de estar vivendo um efeito dominó, e se pudesse descobrir e voltar no tempo, jamais cometeria aquele fatídico primeiro erro.
Havia ocasiões em que se sentia um peixe fora d’água. Um nó parecia se formar em sua garganta. Uma vontade de sumir do mapa. Mas logo se acalmava e aceitava a situação. Sempre fora assim. Aprendera a sustentar-se e a camuflar suas emoções. Não se orgulhava disso, mas como qualquer outro ser na face da Terra, buscava superar-se. Mais que isso, tentava defender-se. Fraquejar nunca foi, e jamais será orgulho pra alguém. Na vida a gente tem que saber perder. Mas a verdade, é que ninguém quer ser o perdedor.
No silêncio da noite, quando, após inúmeras tentativas, não conseguia dormir, sentia pena de si mesma. Não acreditava que apesar de todo o seu potencial não conseguia. Sabia das suas qualidades, sabia o quão poderia, mas não conseguia explicar porque as coisas simplesmente não aconteciam. Ela parecia ter medo. Medo do sucesso. Medo de ser melhor. Medo de PODER. Isso a deixava totalmente abalada. Qualquer pessoa gostaria de ser assim. De conseguir… Por que ela não?
Buscava explicações na sua curta história de vida, mas fato é que nada de excepcional havia acontecido. Não havia como culpar esse ou aquele acontecimento, porque não houvera nada tão traumatizante. Claro que coisas aconteceram. Situações que por algum tempo a abalaram e a perseguiram, mas tudo parecia superado. Muitas ‘assombrações’ que tivera se deram por conta da idade. Coisas bobas que a falta de ‘jogo de cintura’ fizeram com que perdesse o chão. Mas com o tempo, conseguira superar. Reflexos? Não. Havia algo mais. Qualquer coisa de vidas passadas, talvez. Uma coisa ela tinha certeza, seria preciso conhecer, entender, superar e refazer muita coisa pra que enfim pudesse se sentir bem.

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Friday, February 13, 2009

Macaquinhos no sotão….

Enquanto ela contemplava suas unhas grandes com vestígios de esmalte vermelho, macaquinhos saltitavam em seu cérebro. Quando criança ela havia lido “O Menino Maluquinho”, e a idéia de macaquinhos saltitando no cérebro quase sempre vinha a sua mente quando ficava matutanto, matutando e endoidando com tanta ‘matutação’. Só macaquinhos no sotão poderiam explicar as maluquices que passam pela cabeça da gente. Ela ainda sentia o cheiro de mofo das cartinhas antigas, dos exagerados cartões que trocavam em família a tanto tempo guardados e que nem fazem tanto sentido atualmente. Eles haviam sido uma família feliz, mas hoje… naõ sei como poderia defini-los. Ela escutava músicas de Vinícius e continuava a olhar suas unhas. Estava triste. Ultimamente essa tem sido sua realidade. Uma tristeza que parece destrui-la. Suas olheiras cada vez mais escuras. Noites sem sono. Preguiça. Choro preso. Necessidade de vida. As unhas estavam grandes como a tristeza que sentia. Ela estava estranha. Ela era estranha. Ela anciava por algo… mas o quê? Acho que ela devia ‘cortar as unhas’ .

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Saturday, January 17, 2009

Segredos?!!! Qual o seu?

Indiscutivelmente, todos nós, temos segredos!

Às vezes são ‘coisinhas’ que não gostaríamos que viessem à tona pois nos fariam parecer bobos insignificantes. Fatos inofensivos que nos tornariam alvo de risadas zombeteiras, de corar as faces. Características nossas, atos costumeiros, que escondemos por receio de que sejamos excluídos de determinados círculos. Isso é normal, todo mundo se preserva. Outras, são situações sérias. Complicadas de serem expostas. Irremediáveis.

    Ela crescera e se tornara uma mulher difícil de ser classificada. Não pelas suas inúmeras habilidades especiais, e muito menos pela ausência delas. Não era feia, nem tampouco bela. Não era insuportavelmente inteligente, ou estupidamente burra. Não era engraçada ou ranzinza. Não tinha nada que lhe fosse exagerado. Nada que pudesse identificá-la entre milhões. A não ser, pela sua grande capacidade de acumular segredos. Ela era uma caixinha de segredos.
    É engraçado pensar nela dessa maneira. Quem nesse mundo quereria ser o ‘eterno fiel de segredos horrorosos’? Todo mundo quer ouvir belas histórias, e  não mazelas alheias sussurradas em meio a bebedeiras homéricas ou situações de desespero. Mas enfim, não havia como pensar nela e não pensar nos segredos alheios (que só ela sabia quais eram).
    Às vezes sentia vontade de perguntar o que tal pessoa havia lhe contado em segredo, mas logo desistia da empreitada. Ela jamais revelaria. Havia com ela uma espécie de código de honra. Sim, tudo que lhe contavam em segredo ela jamais reproduzia a alguém. Guardaria aquele segredo mesmo se este, algum dia, viesse a não ser mais tão segredo assim. Acho que era isso que estimulava as pessoas a segredarem coisas a ela. Não sei se isso lhe trazia algum tipo de felicidade. Talvez se sentisse útil assim. Não sei.  Fato é que se em algum momento na minha vida eu tivesse algum segredo que eu não mais suportasse carregar, procuraria por ela. Nela eu sabia que podia confiar.

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Sunday, January 4, 2009

Blá!

    Ali, debruçada sobre o batente da janela amarela, ela via o mundo. Não, ela não morava na Lua, nem tão pouco repousava no céu. A sua casa ficava numa rua comum, num bairro comum, de uma cidade comum. Mas seus sonhos… ah, eles não tinham residência fixa. Não tinham caixa postal, nem algoz. Eram livres.  E quando ela recostava seus cotovelos no batente da janela amarela ela vivia o mundo…
    O vento batia em seus cabelos, refrescando-lhe os pensamentos. Seus olhos tinham o brilho das estrelas, e a vida acarinhava sua face com um suspiro. Em seus sonhos, as palavras tinham cheiro de talco. Os beijos, gosto de morango. Os abraços eram como chocolate quente. Os sorrisos, coloridos. As casas não tinham chaves. E as pessoas já nasciam se amando. Era tudo tão genuíno, tão gostoso, que  o sono vinha fácil. Então, sob a luz da Lua um anjo vinha a sussurar em seu ouvido palavras doces e gentis.
    Ao se levantar, ela olhava para a janela amarela, como quem olha um amigo que não vê a muito tempo. Sempre aberta, a janela lhe prometia um abraço e lhe trazia a segurança que a vida não oferecia. A sensação de aconchego permanecia ao longo do dia. A certeza de que a janela não mudaria de lugar lhe satisfazia.
    Os dias costumavam ser dificéis…

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Monday, November 24, 2008

Hummm!

         Todos os dias ele acordava cedo. Saltava da cama no primeiro ruído do despertador. Apanhava a toalha e se dirigia ao banheiro. Logo ligava o chuveiro e o deixava assim enquanto fazia a barba. Já de barba feita, despia sua samba canção e deliciava-se com um banho quente. Enquanto lavava os cabelos sempre se recordava dela. Ela que por tantas vezes implicara com seus cabelos desalinhados… Vestia-se apressado, pois sempre acabava perdendo minutos preciosos em devaneios feitos sob a água do chuveiro. Perfumava-se e apanhava as chaves do carro e partia. Com o carro em movimento, ligava o rádio. Sempre uma canção de amor. Sempre aquela fisgada por dentro. Seguia adiante tentando afastar aquela saudade de si.
          No trabalho era sempre o mesmo, exigente, responsável e justo. Sua voz grave, assustava num primeiro momento, mas logo era identificada como sinônimo de confiança e praticidade. Não era homem de meias palavras ia direto ao assunto, sempre… no trabalho. No que dizia respeito a sua vida amorosa… que vida amorosa? Saía com uma e outra, se satisfazia, mas não vivia. Nunca havia vivido uma relação. Quando chegara perto disso, a perdera… por medo de dizer o que sentia. Por recear não ser correspondido. Por medo de perder…perdera.
         Ás vezes na solidão do seu quarto, logo depois de retornar de uma farra qualquer, se perguntava por que sua vida tomara esse rumo. Tinha certeza de que perdera a sua chance de ser feliz quando ela partiu. Desde então não se ocupou de ninguém. Não conseguia entender que fora ele quem a abandonara quando não se permitiu dizer, falar, amar, quando deveria. Não entendia que tão imporante quanto sentir é manifestar  aquilo que se passa por dentro.

( continua…)

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Monday, September 3, 2007

Chegou a hora de recomeçar…

   

  Era como andar de bicicleta, novamente, depois de um tombaço. Nao tinha jeito, a vida sempre continua e o mundo jamais pára pra gente descer. Ela pegou suas chaves, sua bolsa e partiu em direção ao trabalho. No percurso praguejava como de costume. Seu carro estava a ponto de deixá-la na mão, mas o que fazer? Não tinha tempo, nem grana, nem outra maneira qualquer de resolver esse problema. Dirigia como uma louca, alheia à vida que existia ao seu redor. É sempre complicado recomeçar.
  Chegou ao trabalho, com o mesmo sorriso gentil nos lábios. Aquilo estava se tornando uma tortura. Manter as aparências, quem diria? Ela que sempre foi contra toda essa gentileza hipócrita do convívio social…aff! Vivendo, aprendendo, e digerindo!
  O dia transcorria monotóno como sempre. Pilhas de papéis sobre sua mesa, telefone tocando a toda hora, muita responsabilidade, pouco oxigênio e litros de cafeína. Estava exausta. Quase todos os seus pensamentos estavam direcionados à sua linda cama quente e fofinha. Seus olhos estavam tão pesados, tão pesados… Decidiu terminar o expediente por ali. Já era quase 8h da noite, estava muita cansada pra continuar. Não quis se aborrecer com o carro e decidiu pegar um táxi. Olhando sob uma ótima econômica-capitalista aquilo era uma loucura, o dinheiro gasto com o táxi, se aplicado, daqui a um ou dois anos, resultaria num montante equivalente a um novo motor pro carro. Mas, quem esperaria 1 ano, pode perfeitamente esperar 2 ou 3. Entrou naquele táxi de alma lavada. Pelo menos por ora não iria se chatear com isso.
  Permitiu-se olhar pela janela do carro, como se não houvesse nada com o que se preocupar… Como se não carregasse mágoa, dor, ou tristeza alguma… Como quem está aberto ao novo… Como quem se arrisca! A quanto tempo não se arriscava a nada…! Tanta gente lá fora e ela ali, trancada naquele carro. Pediu ao motorista que parasse, ainda faltava uma quadra pro seu destino, mas decidira fazer o restante do percurso a pé. Na hora que descera do carro, uma fina chuva começou a cair. Ela riu. E pela primeiva vez em bastante tempo, ria. Ria descontroladamente. Um riso solto, sem freio. Um riso qua a muito estava preso. Que ironia! Chuva!!! Precisava mesmo lavar a alma. Decididamente, era a hora de recomeçar!

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Friday, April 13, 2007

Aqueles olhos…

 

 … diziam mais do que ela imaginava!

Todos os dias ela passava por aquela mesma rua. Aquelas casas, aquelas pessoas lhe eram familiares, embora com nenhuma delas houvesse em toda sua vida trocado palavras outras se não “Bom dia!”, “Boa tarde!” ou “Boa noite!”. Todas aquelas pessoas faziam parte de seu itinerário monótono e cansativo, mas nenhuma delas fazia parte de sua vida, exceto uma.

Todos os dias aqueles olhos a perseguiam. Não que eles estivessem voltados para ela explicitamente, mas pela persiana, eles o fitavam. Ás vezes de esguelha, ela olhava para a janela daquele sobrado desbotado e maltratado, certificando-se de que ainda era vigiada, e com surpresa alguma confirmava aquele olhar sobre ela.

Desde que fora novamente ocupado, aquele sobrado vinha lhe incomodando.  Seja pelo fato de não contar mais com a presença daquela simpática senhora que lhe oferecia bolinhos todos os dias - e que ela também simpaticamente os recusava, seja por aquele olhar constantemente pousado sobre ela, aquele imóvel vinha lhe tirando o sono.

No começo, ela teve medo. Pensou em chamar a polícia, afinal aqueles olhos não a deixavam em paz. Tinha consciência de que sua rotina facilitava aquela religiosa observação. Todos os dias era obrigada a passar por ali, mas quem se  sentiria á vontade ao ser observado piamente, de maneira tão sorrateira? Desfez-se da idéia de fazer uma queixa após refletir sobre o que diria na delegacia: “Olha, vim aqui fazer uma queixa contra um vizinho que não pára de me olhar!”. Não. Definitivamente, patético. Achou melhor redobrar o cuidado.

Ela procurava antecipar ou atrasar a sua saída em alguns poucos minutos, poucos mesmo, pois não poderia mexer consideravelmente em sua cronômetrada rotina senão isso lhe renderia atrasos no trabalho e não seria bom. Fato é que eles continuavam lá, seja qual fosse a hora em que ela passasse aqueles olhos estavam atentos. Aquilo a estava angustiando, resolveu então, indagar na vizinhança sobre os locatários daquele imóvel.

Após algumas palavras trocadas com Otílio, o morador da casa verde engraçada, que tinha uma caixa de correio em forma de côco verde (depois de quase dois anos morando naquela rua, essa era a primeira vez que ela o interpelava), descobriu que o locatário do sobrado gelo na verdade era o proprietário do imóvel. Parecia pouco comunicativo e nas poucas vezes que Otílio o viu saindo de casa, ele vestia ternos impecáveis, carregava uma maleta e usava óculos escuros, o que para ele caracterizava um advogado, executivo ou algo assim.

Ela tentou se tranqüilizar, achou que aquilo poderia ser um bom sinal. Tudo indicava que o dono daquele olhar era uma pessoa respeitável. Começou a fitar aquela janela, a encarar aquele olhar, com bons olhos. Poderia ser apenas um curioso, sei lá. Ou, talvez, ela, de alguma forma, chamou sua atenção. Decidiu se produzir melhor. Na quarta semana já sorria para aqueles olhos. Um sorriso de canto de boca, mas um sorriso. No trabalho, as pessoas lhe perguntavam o que teria acontecido, ela estava mais corada, mais disposta, mais bonita. Ela se sentia feliz. Claro que jamais assumiria para quem quer que fosse que o motivo de tal transformação se devia a furtivos olhares que um vizinho estranho lhe estava dirigindo. Mas sabia bem o quanto eles tinham sido essenciais para seu recente bom humor.

Qual não foi a sua surpresa quando, após três longos meses de expectativa e flerte, ela não o encontrou. Aqueles olhos não estavam lá. O que teria acontecido? Preocupou-se, quase se esvaiu em devaneios pessimistas, mas enfim ponderou, ele deveria ter tido um compromisso que o obrigou a antecipar-se. Seguiu adiante, afinal não poderia se atrasar. Passou o dia inteiro com aqueles olhos em seu pensamento. “O que há naquele olhar? Por que aquele olhar para mim? Por que sua falta me deixou assim?” Tentou afastar qualquer pensamento de sua cabeça alimentando-se com a perspectiva de que à noite, quando retornasse à sua casa, ao passar em frente àquele sobrado, os olhos estariam novamente ali, por trás das persianas a contemplá-la.

Depois do seu expediente diário, com ansiedade, desceu a rua de sua casa. O sobrado estava logo ali à frente. Mas, nada. Nenhuma olhadela. Nenhuma persiana entreaberta. Perplexa, ela seguiu em frente. Será que ela imaginava que isso nunca aconteceria? Sim, ela imaginava. Por isso não estava preparada. Chegou em casa, angustiada. “Por que ele não estava lá? Por que?” Passou a noite em claro, sem conseguir entender como a falta de um olhar a tinha deixado tão perturbada.

No dia seguinte ela arrumou-se novamente. E assim sucessivamente, dia após dia. Mas aquele olhar, nunca mais retornou. Ficou sabendo por Otílio, que agora já considerava um amigo e do qual a casa passara a freqüentar, que o sobrado estava á venda. Sentiu uma pontada de tristeza. Decidiu ir até lá. Bateu-lhe uma curiosidade a respeito daquele velho sobrado, daquele recente habitante. Talvez ele houvesse esquecido algo e ela poderia saber de quem eram aqueles olhos.

Num rompante, ela saltou um muro. Sentiu a adrenalina a mil, pois tinha a consciência de que estava invadindo uma propriedade alheia. Tentou a porta dos fundos e… ela estava aberta. Acho que nunca teria sido mais fácil invadir uma residência. Bisbilhotou a casa toda, parecia estar tudo no lugar. Alguns móveis, pouca coisa. Deixou por último aquele cômodo onde ficava a janela com as persianas. Ao cruzar a porta viu uma escrivaninha e em cima dela um envelope. Ansiosa pegou o envelope, no verso deste estava escrito “Para você”. Começou a abrir, mas parou. Pensou bem. Aquela carta por acaso era sua? Como saberia? Estava enderaçada a VOCÊ. Mas VOCÊ poderia ser qualquer pessoa, então… poderia perfeitamente ser ela. E só haveria uma maneira de descobrir, abrindo aquele envelope e lendo o seu conteúdo. Numa caligrafia forte e legível, a carta dizia o seguinte:

Espero que esta carta se encontre agora, nas mãos da pessoa certa, VOCÊ.

VOCÊ…

 … que todos os dias sai de casa logo cedo e só retorna a noitinha,

… que parecia tão triste e distraída,

… que mal cumprimentava as pessoas,

… que andava sempre muito discreta,

… que mirava todos os dias a minha janela, com um olhar carente,

… que me fazia rápida companhia no café da manhã e na ceia da noite,

… que de uma hora pra outra começou a produzir-se mais,

… que agora já parece disposta a estabelecer contatos com os vizinhos,

… que enfim descobriu o quão bela pode ser.

Para Você que escrevo.

Talvez, essa sua transformação se deva aos meus olhos curiosos que por ironia do destino cruzaram os teus numa manhã dessas. Melhor, talvez você pense que tudo se deve a isso, mas não. Não foram meus olhos que te fizeram mudar, e sim o que você viu neles.

Você viu que pode ser desejada, que pode ser bonita, que pode ser diferente. Viu o quanto a vida poderia ser melhor, bastava mudar um pouquinho. Talvez movida pela curiosidade a meu respeito, você começou a conversar com a vizinhança. Começou a alargar seus limites, a ampliar seu mundo. No começo você teve medo dos meus olhos, teve medo do que via neles, mas logo quis me conhecer. Mas você acabou fazendo melhor, passou a se conhecer. Sem querer você percebeu que tinha uma vida solitária, monótona. Veja só! Até ousou invadir minha casa!

Talvez, agora, esteja passando um filme na sua cabeça. Talvez, agora, você tenha perdido o interesse em me conhecer, não faz mal. O importante mesmo foi você ter se conhecido.

Às vezes a gente só precisa de uma oportunidade na vida. Uma oportunidade de se ver e fazer melhor. Você se deu essa chance! Agora vá! Você já viu nessa janela o que precisava ver. Vá ser feliz!

Tranquilamente ela dobrou a carta, guardou-a no envelope e a deixou sobre a mesa. Aquela carta não era importante. Aquela janela já não era importante. Aqueles olhos já foram importantes. Importante mesmo, agora, era seguir em frente. Era se amar. Era ser feliz! E ela, então, se foi! Pra onde? Ninguém nunca soube, mas há quem diga que ela tinha um sorriso no rosto, uma mochila nas costas e um ar de quem estava indo fazer o que sempre quis… voar!

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Wednesday, August 30, 2006

Você tem rugas?

Os sonhos morrem? Ás vezes penso em pessoas mais experientes que eu, e me pergunto quantos sonhos se escondem por debaixo das suas rugas? Tenho a nítida sensação de que muitos têm sonhos que nunca se realizarão.  Mas será que esses sonhos morrem?

Sua vida está tão sem graça. Você não entende bem o por quê. Algo te incomoda e não demora muito para que você perceba que lhe falta algo. Ainda não sabes bem o que seria.  Os dias se passam e esse sentimento continua a persegui-la.

Numa tarde quente de verão, um sonho aflora dentro de seu coração. Esse sonho lhe domina a mente e lhe cobra uma atitude que favoreça sua realização. Dentro de ti começa a crescer uma convicção de que pode realizá-lo. Você começa qualquer coisa acreditando que conseguirá. Os dias se passam e cada um deles parece querer lhe provar que aquilo tudo fora um devaneio. A rotina te envolve totalmente, então esqueces daquela tarde de verão, esqueces do sonho e da certeza que tinha.

A vida continua e você absorta em problemas e cotidiano. É inverno e seu coração está frio. Sentes um aperto no peito. Essa sensação lhe lembra algo, mas você não sabe o que é. Tenta continuar com suas obrigações e tristezas. Elas já fazem parte de ti. Não consegues se libertar delas. Uma lembrança te persegue. Sempre fostes assim? Triste? Algo lhe diz que não. Você tenta a todo custo se lembrar de como fora um dia. Esforça-se. Cansada, adormece e… sonha. Sonha com uma tarde de verão em que seu coração se aquecera.  O dia amanhece, a rotina lhe espera novamente. Durante a tarde, em meio a uma de suas atividades, você se recorda de um sonho que tivera a algum tempo. Um sonho concebido de olhos bem abertos, que lhe fizera acreditar em algo e viver momentos de confiança e felicidade. Mas você não tem forças para buscá-lo. Todas as portas parecem estar fechadas. Você tem tantos problemas e não consegue tampouco resolvê-los, como poderá partir em busca de um sonho?

Assim, seu sonho morre. Com ele, suas esperanças. Você chora e já não se sente racional o bastante para continuar suas atividades. Você precisa de um momento seu. De um momento em que possa refletir sobre o que vem fazendo e o que tens deixado de fazer. Dentro de você uma luz começa a reavivar-se. Ela é persistente. Você continua chorando e se lamentando, e ela continua lá, torcendo para que você a perceba. Torcendo pra que você Ressuscite. Essa luz é nada mais que um sonho seu. Aquele sonho. Sonhos não morrem. Eles sempre te procuram num momento de crise ou num almoço de domingo quando todos sorriem e uma ruguinha se forma ao redor do sorriso de alguém. Sonhos custam tempo e confiança. Sonhos custam sorrisos. Sonhos cobram fé. Sonhos deixam marcas para que você se lembre deles. Sonhos não morrem.

Você tem rugas?

Posted by Pan Montenegro at 17:18:17 | Permalink | Comments (2)